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Mensagens

A formiga quase retida

          A Musculosa orientava as buscas naquela manhã brilhante e fresca. Seguia as indicações partilhadas pelas batedoras e avançava com determinação. Um  dois um dois Nós marchamos todas juntas Um  dois um dois À procura de sustento Um  dois um dois Ninguém fica para trás Um  dois um dois Ninguém fica sem alento Um  dois um dois   - Alto! A ordem da Musculosa percorreu o pelotão que prontamente obedeceu.   Um  dois um dois O perfume que me encanta Um  dois um dois Vem por certo desta flor Um  dois um dois Vou subir por este caule Um  dois   - Alto! – gritou novamente a Musculosa, não conseguindo parar a formiga aprendiz que naquele momento já se desviara do carreiro. O pelotão atónito seguiu-a com o olhar.                        Um  dois Ai que folha tão macia Um  dois um dois ...

O segredo das formigas

O Mateus desceu as escadas para anunciar com moderada preocupação: - Andam formigas lá em cima! Deixou a informação e dirigiu-se para a cozinha, sem dar tempo às perguntas. Ao responder-lhes ficaria implicado na solução, por isso, decidiu abandonar a sala.   O pai levantou-se então e dirigiu-se ao local para observar a gravidade da situação. Rapidamente encontrou e reconheceu o pelotão organizado e determinado que atravessava o corredor junto ao quarto do filho. Ao comando seguia a formiga Musculosa: É sempre com atenção Que saímos à procura Da nossa alimentação, Sempre de forma segura.   No carreiro, nos mantemos, Temos sempre onde ir; É segredo que nós temos, Ninguém pode descobrir.   Cada verso era um grito de união marcado pelo ritmo acertado da marcha. E o pai já os conhecia de outras visitas que a Musculosa tinha conduzido ao interior da casa. Curioso, seguiu a fila para descobrir o objetivo daquela incursão. Um pouco mais à frente, a Mus...

Música para os nossos ouvidos!

  - Há um concerto no Centro Cultural no próximo sábado. Podemos fazer a reserva dos bilhetes neste site . O silêncio do ouvinte provocou outra tentativa. - Música de câmara por solistas da Casa da Música… flauta, clarinete, trompa, fagote… Meninas, também querem ir? - Se vocês forem, com quem é que nós ficamos? É à noite? – inquietou-se a Clara. - Vamos todos - arriscou a mãe sem hesitar. O pai ia reagir, mas não teve tempo. A mãe entregou-lhe o telemóvel para fazer a reserva - há sorrisos irremediáveis.  Iam ao concerto! A Teresa e a Clara abriram os olhos de espanto. Alguém queria protestar? Era a última noite de abril. Chegava depois de um dia quente, brilhante. O jardim, exuberante, deslumbrava os sentidos! A comunhão das cores, as formas limpas e perfeitas, os perfumes intensos e puros, lugar onde os sons desalinhados encontravam o compasso certo, a sinfonia sempre desarmante, debutante. O auditório mostrou-se acolhedor. E o silêncio era confortável, uma clareira onde as...

Leonor, Leonoreta

  As palavras vaguearam pela sala, borboletas sensíveis em busca das flores dispostas e entusiasmadas com o Sol. Tinha chegado o momento. Finalmente, Leonor passava descalça para a fonte. Sustentava na cabeça o pote, na mão direita levava o testo. Passava formosa, discretamente envergonhada, secretamente ousada. Passava, ia para a fonte.     Observei-os demoradamente junto àquele caminho verdejante, onde as palavras sussurravam nas suas conchas puras e era preciso encostá-las ao ouvido para escutar o seu eco distante. Traziam ainda as conversas na fonte, as promessas de amor, as saudades do amigo ausente.    E Leonor passava, ia buscar água. Mas ninguém parecia reparar nos pés descalços, endurecidos, seguros em cada passada.  Ninguém fitava o pote vazio, ninguém apontava o duro esforço - chegar à fonte, encher o vaso, levar água para casa!   E lá ia Leonor. Trazia a saia de cote, a saia de todos os dias, sempre branca, sempre pura. A outra, se a tive...

Abóbada

  Estavam todos na parada. Quase prontos, quase sempre prontos. A formatura ali exposta pouco ou nada dizia da sua descompostura interior, do desalinho mais ou menos visível. Impossível gostar deste texto! Quem se lembrou de nos pôr a ler uma coisa destas!? Não sei como consegue, repara naquele entusiasmo! Seguiam-se os últimos capítulos da obra que juntos percorreríamos como o mapa de um terreno que importava conhecer muito bem. E eu estava deveras entusiasmado. Mãos nas palavras! Sentido! Ler as palavras! Sentido! Depois era necessário o grito interior, individual e mudo, o pasmo de quem descobre paisagens inóspitas, inesperadas, desafiantes. “Um rei cavaleiro”… “O voto fatal”… Mas a resistência permanecia visível na mão que apoiava o rosto, nos olhos introvertidos e tristes.   Algumas palavras pareciam rochedos intransponíveis! E eram tantos que a viagem se tornava aborrecida e demorada. O horizonte teimava em não aparecer. Nada pior do que a viagem que não permite o ...

Dispositivos no caminho

- Bom dia! O rapaz entrou na sala com a lentidão de quem tem de apanhar o autocarro que nos leva de volta no fim das férias que nunca queremos terminar. Colocou a mochila em cima da mesa e sentou-se. O professor observou discretamente estes movimentos e reparou que os olhos dele ainda não tinham chegado. Percorriam ainda as felizes paisagens interiores que se deixavam vislumbrar na curva que no rosto o sorriso desenhava. - Bom dia! Desta vez, os olhos do moço procuraram lentamente a voz que o saudava, igualando a maçada de quem encontra um revisor, imóvel, ao alto, braço estendido. - Podes colocar o teu telemóvel no cesto, por favor? Despertou. - Sim, claro, desculpe! O professor continuou serenamente a recolha, parando em cada lugar, aguardando o modo sem som, só depois avançando. Sentia a responsabilidade das vidas assim recolhidas, abafadas, estagnadas, algumas em modo de avião. Sentia ainda os tremores, as vibrações protestantes. - Obrigado!   - agradeceu, ao vo...

Dores de crescimento

  O rapaz estava ensimesmado no sofá, esquecido das pernas e dos braços que mantinha em posições acrobáticas. Conservava na cabeça o capuz para criar uma fronteira com o mundo que todos os dias descobria qual alpinista destemido. Aterrara havia pouco tempo, vindo do reino onde sempre vivera, um círculo perfeito, luminoso, uma brancura ingénua e feliz. Agora percorria as ruas de um outro cheio de cores e brilhos confusos, onde o branco parecia branco. Um labirinto onde, por vezes, já não era uma vez. Sem volver os olhos, perguntou: - Pai, ouvi dizer que és um romântico, é verdade? O adulto olhou-o fixamente por momentos, em silêncio. Percebeu que não ia encontrar os olhos do filho que acompanhava com algum interesse o decorrer de uma série policial. Às vezes, encontramos nos olhos o caminho da resposta que as palavras em ponto de interrogação não sabem antecipar. Arriscou então uma graça: - Não me digas que estás apaixonado? O rapaz reagiu com espanto à inesperada pergunta. ...

A profundidade das árvores

  Por momentos, o silêncio ganhou espaço no carro. O pai fixava as paralelas brancas que acomodavam a viatura e lhe ditavam os limites. Tinha mergulhado numa espécie de futuro que por momentos nos visita sem nunca se deixar agarrar.   Imaginava já as agendadas tarefas que se acotovelavam para aparecer. O Mateus seguia ao lado, calado e concentrado no exterior recortado pela janela. - Pai, olha ali! – pediu o rapaz. Não precisava de apontar. O pai sabia muito bem o motivo do espanto. - Muito corajoso, Mateus. Com esta chuva, logo pela manhã… registo com espanto o sacrifício daquele homem! - Oh! – reagiu o Mateus, acompanhando a interjeição protestante com um acentuado encolher de ombros. Ainda se voltou para trás de forma a ver mais uns segundos aquele quadro matinal. O silêncio voltou. As árvores despediam-se das últimas folhas que apanhavam o sopro do vento agitado e, baloiçando, chegavam suavemente ao chão. E os ramos lá ficavam orgulhosamente erguidos. A perda não...

Vírgula, mas chegas tarde!

          - Pai, por favor! Eu preciso de tempo! Devagar se vai ao longe… não é o que costumas dizer?!           - Vírgula, mas chegas tarde! Há muito que o pai conservava esta exclamação em ponto de disparo. Crescera com ela acomodada na zona mais acessível da memória, sempre pronta como qualquer carimbo quadrado e precipitado. - Vírgula, mas chegas tarde! – repetiu, perante o espanto do filho. O rapaz conviveu com as palavras alguns segundos, enquanto lançava no quadriculado mais uma das incógnitas reduzida a xis.  - Espero que não me voltes a contar a história da lebre e da tartaruga… - gracejou. - Nem todas as lebres adormecem na viagem! – reagiu o adulto prontamente. O rapaz introverteu-se e alinhou mais alguns números, perseguindo rigorosamente o resultado final, e não respondeu ao pai que, segundos depois, desmantelou a sapiente muralha e afastou-se. Pensou depois que nunca lhe tinham dito que particip...

A tarde clara e solidária

  O Sol tocava as folhas dos liquidâmbares ainda verdes que brilhavam agradecidas junto ao portão. Ao lado começava o estradão ladeado por muros seculares, feitos de pedra tosca agora aveludada pelo musgo. Aí se escondiam o som dos passos e as palavras ditas pelos passantes, os que iam cantantes e vigorosos, os que vinham cantantes e cansados. Alguns metros mais à frente, logo após uma curva acentuada, o caminho findava para dar lugar ao campo largo e comprido. Era aí que esperavam as canas de milho. A bandeira que hastearam durante meses tinha sido cortada e agora permaneciam alinhadas qual coro que aguarda o gesto melódico do maestro. Segredavam sobre as espigas que irrompiam triunfantes da palha que as envolvia, sobre os pássaros que as visitavam e a quem ofereciam alguns grãos em troca das histórias que traziam de muito longe. Sobre os gatos que esperavam horas junto das raízes, para, repentinamente, se lançaram num ziguezague impossível, alcançando pouco depois a presa que tin...

O segredo das árvores

Da minha janela, observei-as demoradamente. Incomodava-me aquela inclinação ordenada, como se todas quisessem levantar raízes e procurar outras paragens. As copas semidespidas tinham oferecido ao vento do mar as folhas que seguiam pelo caminho do sonho, rompendo as fronteiras daquela praça cercada por edifícios quietos. Estes pertenciam à classe daqueles que hibernavam longamente para despertarem nos dias quentes e longos. Nesse tempo, subiam as brancas pálpebras e os retornados carros escondiam-se discretamente nas caves. Observei-as demoradamente. Algumas tocavam-se suavemente, cruzando os ramos, acariciavam-se as folhas, contando segredos escondidos no rumor, no sussurro de cada movimento. Nunca conheci as raízes, apenas a sua estatura. As raízes seriam fundas se lá no fundo houvesse o que procurar. Outras permaneceriam à superfície, beijadas pelo orvalho, agarradas à terra que as adotara. Eram três os canteiros, todos retângulos, dois deles siameses. As árvores eram seis, a...