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Mensagens

Joaninha, voa, voa

            - Pai, hoje, vais escrever uma história sobre o Pandinha, a Joaninha, o Unicórnio e o Passarinho! - Vou?! O convite da menina trazia escondida a certeza da resposta e, por isso, não esperou o tempo suficiente para que o pai encontrasse um obstáculo qualquer. Um daqueles aborrecidos que sempre impedem o sonho e que nos amarram ao presente descolorido. Ficaram aquelas criaturas, carinhosamente embrulhadas no nome dado, à espera de uma oportunidade. A menina apresentara-as daquela maneira, recortadas, pedaços da história onde as tinha encontrado, abandonadas junto à vontade do pai.   O Pandinha, a Joaninha, o Unicórnio, o Passarinho!   Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?   Que acaso as uniu, assim, vestidas de pequenez aveludada? O Pandinha esperava pacientemente pela folha escondida no rebento que despontava no poderoso tronco. Um pouco mais acima, uma Joaninha...

História fora da janela

A Teresa aproximou-se, os olhos eram do tamanho de uma rede gigante. Era impossível fugir-lhe. Trazia na mão uma pequena janela que o Sol nunca tocara. Por ali, nunca a brisa suave e perfumada fizera caminho, nunca o canto dos pássaros atravessara aquele vidro sensível. O Pai ainda recuou três passos na esperança de não ser apanhado, mas logo sentiu dois toques no braço seguidos do insistente vocativo:                  - Pai, pai! Os óculos na pontinha do nariz libertavam carinhosamente os olhos irresistíveis. – Pai, escreve aqui um papagaio, dois ratos, uma tartaruga. Perante a incompreensão do adulto, continuou: - Aquela história que eu vi no outro dia: um papagaio, dois ratos, uma tartaruga… O pai registou na barra de pesquisa as palavras mágicas. Cada uma era agora uma cana de pesca naquele retângulo que parecia um barco na superfície do mar profundo. Rapidamente, emergiram centenas de vídeos alinhados. ...

Feliz ano novo!

       - Pai, quando vamos a casa da avó?                 A pergunta trazia um vazio agarrado, vinha vestida de saudade. Era um protesto sublinhado pelos olhos que o fixavam intensamente.                 - Já falta pouco!                 - Quando chegarmos, posso dar-lhe um abracinho?                 O pai refugiou-se nos olhos da mãe que ao lado também ouviu a pergunta da Teresa. Uma lágrima atreveu-se antes das palavras.                 - Que tens, pai?                 Nada.     Não tinha nada. ...

O Pai Natal e as renas um pouquinho aborrecidas

  - Pai, vem cá, por favor. O Mateus agarrou o braço do pai e conduziu-o até à janela. - Repara! - desafiou, enquanto apontava uma constelação brilhante no firmamento. - Não me parecem estrelas! – afirmou o pai. – Vês aquele brilho avermelhado? Assemelha-se às luzes de um carro ou de um avião... O Mateus fixou alguns segundos a claridade estranha concentrada no céu. - Até parece um engarrafamento! E ficaram ambos presos àquela imagem, enquanto a noite fria crescia, espalhando o luar que a tornava suave e transparente. De repente, o Mateus notou que o rádio fazia movimentos estranhos em cima da mesinha de cabeceira. O fio que lhe servia de antena não parava quieto. Os números vermelhos apareciam e desapareciam desesperadamente. Aproximou-se e sossegou-o, tocando num dos botões disponíveis. Nesse instante, ouviu um sussurro: - Só as crianças poderão ouvir esta notícia. Repito, só as crianças poderão ouvir esta notícia de última hora. O Mateus sentou-se então na beir...

Conto contigo

  Foram chegando de mansinho, discretamente. Os primeiros encostaram o nariz ao vidro da janela e ali ficaram apertadinhos pelos que foram chegando depois. Espreitaram, curiosos, para ver as meninas que se preparavam para uma serena noite de sono. A Teresa fez uma conchinha, fechou os olhos, segurou o rosto com as duas mãos, sorriu e adormeceu devagarinho. A Clara não. A Clara resistia, mantinha os olhos bem abertos, via para além do tecto as aventuras e os sonhos que já não cabiam na sua imaginação e brotavam nos movimentos que fazia com os braços e nas melodias aveludadas, quase inaudíveis, que segredava ao unicórnio que abraçava carinhosamente. Eles continuavam à espera no parapeito da janela. Ainda não era o momento ideal. Sabiam que só podiam entrar em caso de emergência e estavam treinados para os longos saltos que encantavam os meninos e as meninas.   As ovelhinhas e os carneirinhos mostravam o nariz rosa e os olhos simpáticos que sobressaíam da sua lã macia e bra...

Em terra de reis...

                    - Pai! – a Clara reagia com surpresa sorridente. Admitia que ele estava certamente a brincar. – Não é assim, enganaste-te!                 O pai continuou concentrado na conversa que mantinha com o Mateus.                 - E sabes explicar o provérbio?                 - Claro… - afirmou o Mateus, incapaz de esconder uma certa hesitação agarrada aos gestos, pendurada no olhar descendente.                 A explicação foi surgindo do escuro como a lua em quarto crescente.                 - Pai, não é assim! – insistia a Clara que, ...

Cantiga Chinela

https://cantigas.fcsh.unl.pt/manuscrito.asp   (Tropa Chinela, pelotão dedicado e aprendiz) A poesia invadia a sala. Cada palavra chegava carregada de tempo e de espanto. Trazia rugas nas voltas desenhadas e a história dos séculos no ventre de cada vogal.   - Digades, filha, mia filha velida, por que tardastes na fontana fria?   Chegavam as palavras fundadoras. Chegavam e não se reconheciam na descendência reencontrada. Sentiam no corpo a perda de cada sílaba, a rebeldia dos sons desaparecidos e alterados. Repararam no sorriso benevolente das meninas sentadas, longe das mães e das perguntas prudentes que sempre souberam fazer. Perceberam que elas, as meninas, já não apanhavam flores para pôr no cabelo a caminho da fonte. E sentiram-se fechadas na sala, longe dos verdes campos da cor do limão , das fontes frescas, limiar de vida. Percebiam-se despidas das melodias que outrora abraçavam as sílabas e dos movimentos intencionais dos amigos que desafiavam as meninas...

O cativo feliz

A Clara aproximou-se do pai que permanecia concentrado na leitura de um livro que tinha aberto sobre a secretária. Trazia na mão o tablet e um protesto organizado pronto a irromper. - Sim, Clara! Também não tenho internet! – antecipou-se o pai. A menina acalmou as palavras amotinadas e já não permitiu que a boca lhes desse forma. Tinha percebido que o pai não queria ser incomodado naquele momento. Dava já meia volta, quando reparou na página que ele olhava fixamente. - O que é isso? - Um pergaminho. - Um pergaminho? – estranhou. - Um texto muito antigo. Este, por exemplo, já tem mil anos. E provavelmente foi escrito numa folha feita a partir da pele de um animal. A menina mostrou alguma resistência e não desistiu: - Uma história com cavaleiros e princesas presas numa torre vigiada por uma bruxa má? Por momentos, o pai pensou que devia dar o caso por encerrado. Mas, segundos depois, resolveu apoiar aquela curiosidade desafiante. - Sim – respondeu, certo de que a His...

O sorriso escondido espreita no olhar

Entrei e dirigi-me para a secretária disposta junto à janela. As cortinas dançavam inspiradas pelo vento, que parecia querer fugir daquele espaço. Junto ao monitor, havia um líquido transparente que disparei sobre os objetos por ali alinhados. Era a primeira vez, nunca os tinha recebido assim: sorriso escondido, mãos presas, algemadas, negando os abraços que apagam a distância e a saudade. Restava o olhar espantado, resistente, líquido, enraizado… Entraram e procuraram enfileirados a higiénica torre que os protegeria dos ataques inimigos. Tomaram depois posição no lugar respetivo. Reparei que também eles mantinham o sorriso aprisionado, amordaçado. Mas não os olhos. Esses passeavam pela sala, encontrando outros a quem contavam pequenas histórias silenciosas, deliciosas, às vezes, ousadas, às vezes, envergonhadas. As gargalhadas formavam uma albufeira atrás do muro que lhes barrava o caminho. Apenas o som abafado conseguia evadir-se. Gargalhadas incompletas. Enquanto os observav...

Uma tenda no jardim!

  A noite tinha chegado e havia espalhado pelo lugar a sua mantinha leve e brilhante. A lua parecia um candeeiro atento que resgatava do escuro as mais belas flores do jardim. O silêncio era agora o tempo dos animais: os cães uivavam notícias ao desafio, as cigarras afinavam o interminável cânone e os gatos ronronavam histórias de caça. - A minha lanterna, mãe? A Clara avistou-a rapidamente, antes mesmo da resposta pedida, e divertiu-se a fazer círculos brilhantes no tecto da sala. - Clara, essa lanterna é minha! – queixou-se imediatamente o Mateus. - Não é nada! A tua é a redonda! – contrariou. Daí a pouco, a Teresa seguiu os irmãos, que já tinham saído para o alpendre. Um pouco atrás, testando a lanterna do telemóvel, avançou também a Inês. - Pai, ainda demoras? – protestou o Mateus que queria chegar depressa ao jardim da casa vizinha. Saíram. O orvalho afagava as ervinhas do caminho. Cada gotinha deslizava pelas pétalas e pelas folhas, saciando a sede que o Sol t...