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Mensagens

Pai, tu gostas de ser adulto?

                - Um, dois, três, macaquinho do chinês! Um, dois, três, macaquinho do chinês! Para trás, mexeste-te! Um, dois, três, macaquinho do chinês!               O sorriso não cabia na sala, invadia todos os espaços da casa, renovando-os a cada gargalhada que o acompanhava. As folhas das plantas, que procuravam a luz, baloiçavam com aquela brisa feliz que as tocava, tornando-as mais brilhantes.                 - Um, dois, três, macaquinho do chinês! Pai, para trás, mexeste a perna!                 - Continuem, vou à cozinha, já volto.                 - Pai, tu gostas de ser adulto?          ...

Ganhas quando perdes?

A Clara entrou no carro, atrás do Mateus, sem dizer uma palavra. Não era habitual. - Clara, correu tudo bem? – perguntou a mãe. Ela não respondeu. O pai arrancou, fixando, por momentos, os olhos da mãe, em busca de uma resposta. Era sexta-feira, pouco tempo faltava para as três horas. As nuvens acumulavam-se num só espaço, cada vez mais cinzentas, cada vez mais escuras e o vento aguardava, mirando pasmado aquela construção. - Quando é que volta o sol? – lamentou-se a Clara. - Também já sinto falta – concordou a mãe. O trajeto era curto. Depressa chegaram a casa. A Clara reparou então que as árvores do jardim continuavam encolhidas, voltadas para dentro. Parecia que também elas esperavam pelo sol. - Mãe, porque é que as árvores se despem no inverno? - Sem as folhas, talvez possam aproveitar melhor o sol que lhes aquece o tronco e os ramos… Mas ainda não me disseste por que razão estavas tão pensativa. - Ouvi uma notícia no rádio do carro esta manhã. - Que notí...

Filho de peixe aprende a nadar

O Mateus elevou a colher e, mesmo antes de provar a sopa, hesitou, voltando a colocá-la no prato. Depois olhou fixamente o pai: - Pai, o filho do peixe é o peixe, certo? - Sim…? - E o peixe sabe nadar? - Sim. - Sempre? - Não conheço nenhum incapaz. - E por acaso sabes dizer-me como aprendem os peixes a nadar? O petiz teve ainda tempo para refazer a pergunta: queria saber se, ao nascer, logo começam a nadar. Mas o que preocupava o pai não era a resposta que agora preparava, mas, sim, as perguntas que ele ainda não tinha feito e que apenas esperavam o momento certo. Respondeu, portanto, com cautela: - Todos os peixes, na minha opinião, aprendem a nadar. E agora já podes comer a sopa? – perguntou, tentando escapar ao assunto. Porém, o Mateus não encolheu a imaginação. Ficou apenas algum tempo pensativo, fazendo rolar na mesa a argola do guardanapo. Ensaiou mais uma colher que elevou lentamente. O pai respirava já, secretamente, um certo alívio. - Pai, tenho uma...

Para além do meu umbigo!

O Mateus tinha nas mãos uma narrativa. Delicadamente, deixou que os olhos fugissem pelas margens até se fixarem numa fotografia que permanecia na mesa. Sorriu ao ver-se bébé. Voltou a fixar o texto. Descobriu concordâncias com outras histórias. Que as histórias nunca se desligam, são solidárias, conhecem-se umas às outras. Começou a bater suavemente com a palma da mão numa das páginas. Depressa o ritmo chamou as palavras. Umbigo, umbigo meu, Tu conheces alguém Mais belo do que eu? Umbigo sempre fui Mas depois de ser teu. Antes disso fui cordão E som do coração. Umbigo, umbigo meu, Tu conheces alguém Mais belo do que eu? Umbigo sempre fui Mas depois de ser teu. Antes disso fui ponte, Fui nascente e fui fonte. Umbigo, umbigo meu, Tu conheces alguém Mais belo do que eu? Umbigo sempre fui Mas depois de ser teu. Antes fui colo preciso, Silêncio e sorriso. Umbigo, umbigo meu, Tu conheces alguém Mais belo do que eu? U...

A fuga das palavras

- Pai, tenho uma pergunta para te fazer. - Sim? - É um pouco inusitada. O pai já não estranhava certas palavras que o miúdo utilizava. Inicialmente irritava-se, no entanto, foi percebendo que afinal as usava com propriedade, como quem calça pela primeira vez os ténis preferidos. Aquele brilho, aquele sorriso, aquela felicidade! - Tu sabes o que é a poesia? - Não. O petiz ficou perplexo com a incipiente resposta. No olhar, germinava uma certa desilusão. - Vá lá, pai! Essa não é a tua melhor resposta! - Já tentaste o dicionário? - Quero a tua resposta. No dicionário, as palavras não têm futuro, estão presas ao que foram. - Consideras o dicionário uma prisão? - Não tinha pensado nisso, mas até faz sentido: cada palavra vive na sua cela dentro do dicionário. - Cada cela será a definição, o significado de cada uma. - Sim. - As palavras que dão corpo ao significado serão as grades apertadas… - Sim. O Mateus fazia um esforço por acompanhar o pai, mas contin...

Joga comigo!

O Mateus percorria vezes sem conta o estádio que tinha desenhado na calçada apenas com o olhar. Conduzia a bola até à baliza que o banco de pedra há muito sonhava ser - todas as pedras precisam de imaginação para renascer! O garoto fintava, rematava, celebrava. Era ali todos os golos, todos os jogadores que o sonho lhe permitia. Todos os heróis renascidos naquela calçada! Ao lado, o pai observava aquela correria e avaliava erradamente cada toque na bola, cada remate tentado. Dali, todos lhe pareciam falhados. Talvez jogassem em estádios diferentes! - Viste o meu remate, pai? O pai sorriu, prisioneiro da qualidade que a brincadeira do miúdo não aceitava. Talvez não soubesse que a imaginação nunca cresceu e nunca quis ser adulta. - Continua a treinar, filho! – foi o que conseguiu dizer.  E passava-lhe a bola para que ele rematasse novamente. - Viste o meu remate, pai? Sim, mas continuavam em estádios diferentes. Os olhos do adulto estavam reféns de uma perfeição ...

A lição das folhas

O Mateus observava, pela janela, as árvores que se agarravam à terra. Admirava a sua vontade e resistência - mesmo despedidas, permaneciam direitas, elevadas, à espera do Sol que sem vem. - O que vês lá fora? – quis saber o pai. - As árvores. - Porquê? - Não sei bem, estou a olhar e parece-me que estou um pouco confuso. - Porquê? E o Mateus explicou, completando com gestos eloquentes os espaços que as palavras deixavam vagos. - Já reparaste na forma das árvores? Queria o rapaz mostrar que, em parte, aquelas árvores se assemelhavam a um triângulo. - Tu queres dizer uma pirâmide? – ajudou o pai. - Sim, uma pirâmide, pode ser. O pai apontou então outras copas divergentes na forma. - Sim – concordou o Mateus – mas, se reparares, em todas elas, as folhas, todas as folhas, mesmo diferentes, permanecem verdes. E continuou para explicar que os ramos fazem uma cadeia solidária até às folhas mais altas. O pai começava a perceber a lição das folhas, espantand...

O amor permanece

              O pai fixou o rosto da Teresa que na pequena mesa vermelha dava voltas à massa elástica e colorida, acomodando ali a sua imaginação.                 - Obrigado, pai! Este é o melhor dia!                 E lá continuava com a mão na massa, alisando, amassando, moldando. Em cada gesto uma história, em cada forma uma vitória!                 Aquelas palavras ficaram a brilhar no ouvido. Este é o melhor dia! A mãe também as tinha ouvido, fixando a filha, perdendo-se de imediato nas memórias, deixando à porta um sorriso materno.                 - É um amor para sempre! – exclamou o pai.        ...

Um jogo singular

O Mateus estava sentado na bancada ao lado dos amigos. Mantinha os braços apoiados nas pernas e observava com interesse os movimentos dos jogadores. Segurava nas mãos uma pequena folha branca que agitava discretamente de vez em quando. Em campo, o objetivo era simples e comum, marcar mais golos do que o adversário. Além disso, importava ser elegante e preciso no passe. Até aqui tudo parecia estar equilibrado. A dificuldade começava quando se comparava a velocidade dos atletas: de um lado, a velocidade explosiva, voadora, imparável; do outro, a velocidade controlada, arrastada, sorridente. De um lado os mais novos, do outro os mais velhos. Estes, mais cautelosos, não arriscavam muito em território alheio, para não deixar abandonado o jogador mais recuado - aquele que usava luvas para aguentar as chicotadas da bola que chegava sempre furiosa e cheia de pressa. Não tardaram os golos tão desejados. Mas quase todos na mesma baliza – a dos mais velhos. Na bancada, o Mateus mantinha-s...

O fim do mundo já não é ali à frente!

O Mateus estava na sala e fingia uma distração qualquer - os olhos presos no ecrã, os ouvidos agarrados à conversa dos pais.                 - Eu não concordo! O mundo que nós conhecemos acabou!? Que ridículo! – protestava o pai.                 - De certa forma, o texto faz sentido.                 - Desde quando é que o teu mundo na adolescência, por exemplo, era o mundo idealizado pelos teus pais? É uma posição extremada para causar polémica.                 - Não te esqueças de que o artigo termina de forma positiva. Afirma-se que as crianças estão hoje melhores e que o mundo pode renascer…              ...