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Mensagens

Números amigos

                - Posso entrar, Tri?                 - Hepta, meu amigo, claro, entra!             O Hepta estava muito cansado. Já não tinha idade para aquela escadaria. Podia descer de elevador, mas detestava ficar fechado naquele cubículo. Era como andar a mando das teclas de uma máquina que o colocava alinhado ao lado dos vizinhos números para fazer deles o que queria, tirava, punha, dividia, nunca sabia o que lhe iria acontecer, dentro daquelas invenções malucas. Portanto, preferia as escadas, uma por uma, agarrado ao corrimão.                 - Senta-te um pouco, descansa – aconselhou o Tri.                 - A cada dia que passa, parece que vivo mais af...

A Idade Menina tornou-se Maior

A Idade Menina chegou a casa. Saiu do carro e caminhou em direção ao portão. - Até logo. Se precisares, liga. - Até logo – respondeu. O pai voltou para a cidade. Ela, introvertida, atravessou o jardim. Não reparou que o botão da peónia tinha cedido ao abraço do Sol e abrira em flor como quem sorri a quem passa. Não reparou na borboleta que esvoaçava de flor em flor orgulhosa das cores que o Sol lhe oferecera, no dia em que voara pela primeira vez. Tanto tempo desejou voar que agora não sabia se havia de voar ou de pousar. Andava por ali, indecisa, de flor em flor. Voar ou pousar? Pousar e voar. Não reparou no pássaro que saltava de ramo em ramo, ensaiando pequenos voos, sempre tentado pelos mais afastados. Tanto tempo desejou voar mas agora não sabia se havia de voar ou de pousar. Voar ou pousar? Pousar e voar. Entrou em casa. Continuava ensimesmada. Voltou atrás para confirmar se tinha fechado a porta. Sentou-se a Idade Menina a pensar na Idade Maior. Ficaram de...

O Senhor Sorriso apresenta uma queixa

O Senhor sorriso saiu disposto a apresentar queixa. Estava cansado, não aguentava mais aquela situação. Contudo, entrou no carro sorridente – afinal continuava a ter razões para sorrir. Aquele era apenas um problema que resolveria facilmente com a ajuda da polícia. Estacionou no centro da cidade e percorreu a pé o percurso até à esquadra mais próxima. Caminhou determinado, enquanto acenava amavelmente aos outros transeuntes. - Bom dia! - Bom dia. Faça o favor de dizer. Em que posso ajudá-lo? - Senhor Agente, estou chocado com o que me está a acontecer ultimamente. Alguém anda a brincar com a minha cara nas redes sociais. - Queira ir direto ao assunto, por favor. - Sim, Claro. Resumidamente, colocaram a minha fotografia a circular nas redes sociais, sem me consultarem, contra a minha vontade. Mais grave ainda, não me revejo naquele sorriso amarelo, mais ou menos torrado, enfim, sorriso amarelo. - Mas tem a certeza de que é o senhor? - Sem dúvida! Veja. E aprese...

Senhor Bom Dia e Senhor Obrigado

          O Senhor Bom Dia entrou na sala e percebeu que teria de esperar muito tempo para resolver o seu problema. Retirou o papelinho e atravessou o espaço em busca de uma cadeira desocupada. Olhou cada pessoa, uma por uma, à esquerda e à direita. A todas foi desejando «Bom Dia!». Silêncio. Todas se mantiveram fechadas, perdidas nos pensamentos ou perdidas na conversa que mantinham para ocupar o tempo. Sentou-se o Senhor Bom Dia satisfeito por ter encontrado um lugar junto à janela. Ver as árvores era suficiente para suavizar a espera. Não trazia nada nas mãos. Se tivesse um telefone muito inteligente poderia tirar fotografias às árvores. Mas afastou rapidamente do pensamento aquela estupidez. Guardar as árvores dentro do telemóvel não serviria para nada. As árvores mudavam a cada momento e isso era mais interessante. Mexeu-se na cadeira, para incentivar outra ideia mais feliz. À sua frente, duas crianças destacavam-se do grupo dos esperadores. As gar...

Dona Verdade e Dona Liberdade

A Dona Verdade conhecia a Dona Liberdade há muitos anos. Moravam no mesmo lugar, uma em frente à outra, e já não se lembravam do dia em que tinham vindo para ali viver. Todas as manhãs vinham à janela. Esperava uma pela outra e conversavam longamente. Eram tantas as histórias que tinham para contar! A Dona Verdade, que nunca foi dona da verdade, nunca se cansava de dizer que tinha sido verdade toda a vida mas que já não se lembrava da sua primeira verdade. Partidas da memória. Aqueles cabelos brancos não a deixavam mentir. A Dona Liberdade gostava de lembrar as histórias da sua juventude. Fechava os olhos em busca do passado que trazia ao presente com saudade. Aqueles tempos em que percorria as ruas à frente das multidões! - Amiga, nesse tempo andava um pouco descomposta! – intrometia-se a Dona Verdade. – Lembra-se daquela pintura? E ficavam a rir abraçadas pelo olhar que as unia. Certa manhã, a Dona Verdade veio à janela, como era habitual. - Bom dia, vizinha! Hoj...

Dona Desculpa e Dona Licença

A Dona Desculpa e a Dona Licença caminhavam pela rua sorrindo a quem passava. A Dona Desculpa com os óculos na pontinha do nariz, a Dona Licença agarradinha à sua bengala. - Bom dia, menino! – saudavam, parando uns segundos para reparar no rosto do rapaz que seguia apressado. - Ó Dona Licença, o rapazito deve ser mais surdo do que nós! – protestou. - Eu cá também acho, deve ouvir mal, é um pouco surdo, assim como nós! – concordou a Dona Licença, enquanto soltava uma divertida gargalhada. E foram andando. O passeio era estreito e, por isso, seguiam lado a lado muito juntinhas. Às vezes, a Dona Desculpa dava o braço à Dona Licença. Como quando foi preciso atravessar a rua e a bengala não era ajuda suficiente. Na verdade, o senhor de verde que brilhava e assobiava ao mesmo tempo andava tão depressa que de repente ficava ofegante e vermelho. Perigosamente vermelho, porque os carros parados logo começavam a rosnar e a fazer tentativas de arranque assustadoras. - Ó Dona Descu...

O Sapo Toquinhas ganha coragem

O Sol apareceu ainda envergonhado. Espreitava atrás de algumas nuvens. Mas foi o suficiente para que todas as plantas rebentassem de alegria. O brilho de cada folha parecia o mais lindo sorriso. Em cada árvore despida, acordavam agora as vizinhas folhas que abriam pequenas janelas nos ramos por onde se punham a espreitar e a contar histórias do longo inverno passado. A Teimosa já vagueava pelo jardim. Aqui e ali parava para avaliar as flores que abriram tocadas pelos primeiros raios de Sol. Sentia-lhes o perfume, observava-as em busca de néctar. Uma das mais corajosas era a peónia. Majestosa! Irresistível! Cada pétala um desenho único e inspirado. No alto do caule, um castelo amarelo, certo da sua beleza. O Sol abrira as portas e foi aí que a Teimosa entrou. O Soneca parou no banco de pedra. Esticava as patas e o corpo para que o Sol o tocasse longamente e o acompanhasse na sua preguiça. Olhava lentamente a Teimosa que entrava e saía da peónia. Nem reparou no Sapo Toquinhas...

O Sapo Toquinhas e as formigas em perigo

Um, dois, um, dois. As formigas aqui vão Um, dois, um, dois. Para enfrentar o perigo, Um, dois, um, dois. Encontrar a solução, Um, dois, um, dois. E voltar para o abrigo. Um, dois, um, dois.                 A Musculosa marchava decidida à frente das companheiras. Desta vez, a missão era séria – as mensageiras tinham emitido um pedido de ajuda urgente.                    - Pai, quando levas estas garrafas para o vidrão? – perguntou o Mateus.                 - Logo que possível. Temos de levar também o papel e o plástico. Por enquanto, ficam aí nos separadores.                 O Mateus e o pai estavam no alpendre e preparavam-se para guardar as ferramentas que tinham usado para limpar o jardim. Uma das garrafas tinha caído...