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Mensagens

O amor é que nunca vem só

      O Mateus estava sentado no sofá ao lado das irmãs, a Clara e a Teresa. A Inês não estava, tinha saído para trabalhar.      A televisão permanecia ligada, mantendo a esperança de que algum deles por momentos a fixasse. Passeava cada um no seu telemóvel, ao sabor das imagens e dos vídeos que julgavam ser da sua escolha. O pai e a mãe também faziam o mesmo exercício, procurando, nas aplicações dedicadas, as conversas mais ou menos interessantes, as últimas publicações dos amigos mais ou menos conhecidos, os produtos mais ou menos úteis, mais ou menos usados.      E assim permaneciam numa proximidade ausente.      O pai foi o primeiro a levantar os olhos para reparar naquele cenário. Repentinamente ocorreu-lhe uma ideia talvez inoportuna, pelo menos inesperada, a que se agarrou por momentos: consciência coletiva. Nem mais. Era como uma pedrinha no sapato quando caminhamos em tempo de férias.       Ali...

E os passos que deres... Dá-os em liberdade

E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro Dá-os em liberdade. TORGA, Miguel, 1999. Sísifo, «Diário XIII».  Em Antologia Poética. Lisboa: Dom Quixote (pág. 446)   - Pai, em que pensas? - Não sei bem... - Acho que não me queres dizer. Encolheu os ombros e desviou o olhar para fugir daquele cerco. - Pareces preocupado – insistiu. Rodou várias vezes nos dedos a argola que ainda permanecia na mesa. Presos nela, presa neles. Pensava naquele rapaz que espantosamente se alongava todos os dias. E recordou que alguns minutos antes ele lhe pedira para abrir a mão. Assim fizera. - Tens uma mão enorme, maior já do que a minha! - É de jogar basquete! – assegurara o rapaz. Podia ser. E não deixou de reparar nos pés que pareciam dois soldados prospetores enviados para analisar o terreno, passando depois o pelotão em segurança. Rodou várias vezes nos dedos a argola que ainda permanecia na mesa. Presos nela, presa neles. - Estou em ...

A farsa de folgar, era do Senhor de MMXXIV

  Matosinhos, 27 de fevereiro Espantou-se, ao entrar na sala, mas logo sentiu uma certa desilusão: viu uma plateia com dezenas de filas onde restavam apenas alguns lugares esquecidos ao fundo. Seguiu para lá e acomodou-se. Fixou por momentos o palco que permanecia sem luz, adormecido. Dali conseguia ver. Colocou o casaco sobre as pernas, a mochila junto aos pés e preparou-se para o espetáculo. Havia telemóveis que se elevavam para as efémeras selfies ou que se recolhiam no regaço para os intermináveis jogos. Tudo o que ali se passava era de imediato reduzido a frenéticos reels que se derramavam nas redes pouco sociais. Todos presentes, todos ausentes. Repentinamente, uma onda de imparáveis palmas, ou de gritos guturais, cavernosos, que mais pareciam apoiar a entrada de jogadores em campo. A plateia havia-se tornado num palco desgovernado onde cada ator se tornara protagonista. Não havia espaço para papéis secundários, muito menos para figurantes. Avisos... que não podiam fo...

Era uma lágrima

Era uma lágrima Que resistia nos teus olhos Aproximei-me para ver melhor E logo correu pelos caminhos Sábios e honestos do teu rosto   Quis acolhê-la num beijo Era brilhante quente macia Oceano de paz que venceu Os meus sentidos   Procurei os teus olhos E logo outra se preparou Amparei novamente A tua alegria simples Transparente   Sinais líquidos de um amor Que só um beijo  Sabe acolher

Pessoas assim

  - Há pessoas assim… são como as velas que ardem até ao fim! As palavras percorreram a sala, abrindo uma clareira silenciosa. Os nossos olhares procuraram escapar, fitando ao acaso, agarrando-se às coisas como se fossem boias, porto seguro em mar encrespado.   Mas ela não conseguiu evitar que certas ondas transbordassem discretamente, libertando discretas gotas que percorreram os caminhos já conhecidos do rosto. - Não morrerão enquanto perdurarem, enquanto as lembrarmos! - Tal como o poeta… enquanto dissermos os seus versos… - Poderão escapar à memória dos homens, mas nunca aos braços do Pai que as acolhe com o eterno sorriso! E ela continuou, certa da grandeza que ali partilhava. Uma história de amor incondicional, que nos revelava que dar nem sempre é dar-se, que entregar nem sempre é entregar-se. Não dava apenas as botas que já não usava, o casaco velho fora de moda. Dava-se discretamente quando mandava pintar vezes sem conta o portão que mantinha sempre aberto, ...

Seguimos maravilhados?

27 de janeiro de 2024, Milheirós de Poiares A igreja mostrava-se por entre os ramos que se elevavam certos da altura que os reclamava. É para o alto que sempre se erguem. E, quando truncados, de novo se levantam, ressurgem confiantes na direção que os anima. As crianças preenchiam já o átrio que abraçava a porta do fundo, pardais esvoaçantes, desordem animada, chilreios sorridentes, simplicidade desarmante que também as eleva para o alto. Ocuparam pouco depois o espaço disponível no interior da igreja. Silêncio! Que era preciso silêncio, sussurravam alguns dos mais velhos, desconfortáveis com o ruído invasor. Mas depressa a chama das velas dançou ao ritmo daquela alegria e as flores dispostas nos altares libertaram o perfume que há muito haviam recolhido. Até os santos nos altares mudaram discretamente a sua posição para melhor observarem os petizes que traziam espanto no olhar e irrompiam pelo espaço em filas irregulares. Depois o canto e a música! Vozes unidas, também a melodia e as ...

Hoje é dia 24!

  Estava sentada no sofá, confortável e serena. Finalmente, os horários dependurados no frigorífico tinham acalmado, abrindo uma certa clareira que tornava o tempo mais confortável e macio.    A manhã estava fria, recuperava da noite que deixara nos carros parados nas bermas um manto gelado. Também as ervinhas se curvavam sob a geada que as cobria com uma brancura que aguardava os primeiros raios de Sol para se desfazer em pequenas gotas que desciam depois à terra que ansiava pela primavera ainda distante.   - Bom dia, filha!   Voltou os olhos brilhantes para o pai, juntou as mãos como quem segura uma expectativa que não quer deixar escapar:   - Hoje é dia 24! Hoje é dia 24!   Sim, dia 24. E ficou a p ensa r na esperança que saltava nos olhos daquela criança.   - Os primos mais logo também vêm?   - Claro, os primos, os tios, os avós, estaremos todos!   A esperança começa sempre no presente. É no presente que germina e ousa brotar, romper...

A montanha que deu à luz um rato

Caminhou em direção ao rapaz, enquanto se lembrava daquela imagem que durante vários dias se tinha apoderado do seu pensamento. Sempre que havia um intervalo, uma nesga de espaço e de tempo, era para aí que teimosamente ele se deslocava.    Uma secretária, um funcionário cinzento, sentado, encerrado nos seus gestos ensaiados e repetidos, agarrado às palavras cansadas que articulava morosamente, palavras engaço, relíquia do que foram. À sua frente, alinhados, animais vários. Orgulhosamente chegados dos três elementos e assim dotados para as circunstâncias onde se formataram. Ouviam, parece que ouviam, a apresentação da tarefa. Em cada rosto, uma amálgama de alegria, espanto e desilusão. Assim, por esta ordem … Parece que ouviam. O estimado senhor, do alto da sua calvície, não dava conta de que os animais à sua frente dispostos não entendiam os sons, não os descodificavam, eram os significantes desprovidos de significado. Terá sido por isso que nenhum deles subiu à robusta árvo...