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Seguimos maravilhados?

27 de janeiro de 2024, Milheirós de Poiares

A igreja mostrava-se por entre os ramos que se elevavam certos da altura que os reclamava. É para o alto que sempre se erguem. E, quando truncados, de novo se levantam, ressurgem confiantes na direção que os anima.

As crianças preenchiam já o átrio que abraçava a porta do fundo, pardais esvoaçantes, desordem animada, chilreios sorridentes, simplicidade desarmante que também as eleva para o alto.

Ocuparam pouco depois o espaço disponível no interior da igreja. Silêncio! Que era preciso silêncio, sussurravam alguns dos mais velhos, desconfortáveis com o ruído invasor. Mas depressa a chama das velas dançou ao ritmo daquela alegria e as flores dispostas nos altares libertaram o perfume que há muito haviam recolhido. Até os santos nos altares mudaram discretamente a sua posição para melhor observarem os petizes que traziam espanto no olhar e irrompiam pelo espaço em filas irregulares.

Depois o canto e a música! Vozes unidas, também a melodia e as palavras em busca das alturas!

Percorri-os lentamente com o olhar. Cada minuto ali, ouvintes, cantantes, descentrava-os, arranca-os de si próprios. Aquele silêncio talvez incompreendido era uma vitória sobre todas as vozes e imagens descendentes, fugidias em cada ecrã nas mãos de uma criança, que os invadem como as águas descontroladas de um rio que galgam as margens frágeis e destroem as sementeiras ainda incipientes!

Aquela inquietude era ali heroicamente orientada!

Depois o canto e a música! Vozes unidas, também a melodia e as palavras em busca das alturas!

E a palavra ouvida! Sons apenas, puros, que se escutam com todos os sentidos. Palavra que também se vê em cada gesto determinado, em cada curva melódica, em cada silêncio sabiamente articulado!

As perguntas não tardaram:

- Caminhamos admirados? Avançamos maravilhados?

Em cada rosto um sinal. Afirmativo? Negativo? As interrogações faziam o seu caminho. Revistavam, examinavam as vidas ali presentes, questionavam as maravilhas, as que nos elevam, as que nos apoucam.

- E as palavras de Jesus?

Silêncio.

 Que era preciso recuperar dessa admiração envergonhada, escondida!

Que era preciso passar a ver de outra maneira, como Paulo que se levantou depois de se ter verdadeiramente maravilhado!

Que era preciso manter este encanto, esta incandescência que permite dar forma à virtude! Eis a conversão, a metanoia - palavra que vem de longe, plena de saber e de luz!

Depois o canto e a música! Vozes unidas, também a melodia e as palavras em busca das alturas!

 Obrigado, D. Roberto Mariz!